domingo, 5 de dezembro de 2010

Migrando

Não sei qual a forma de entrada das pessoas aqui, mas percebo alguma frequência. Como o Berlin direction está totalmente desativado e eu iniciei um outro blog, escrevo esse último e derradeiro post para convidar a quem quer que apareça aqui a visitar o Habana Direction, blog resultado de minha passagem pela Ilha de Cuba.
Muito agradecida.

sábado, 14 de agosto de 2010

Só depois da Copa do Mundo

Tem sido tarefa fácil me aborrecer: tpm. Mas cheguei na minha terra natal e me senti uma estranha no ninho. Como historiadora e maringaense, ver pela tv as máquinas da prefeitura destruindo um prédio histórico, doeu. Nem tive coragem de ver ao vivo. Por onde anda a noção de patrimônio histórico do poder público? A sociedade se organizou, mas não foi ouvida. Sinto muito, sinto tanto. Sinto vergonha. Me sinto fora, out... uma coisa tão óbvia! A UEM já tem um curso de arquitetura, poderia abrir um concurso, como aconteceu com o Circo Voador no Rio, quando o projeto de um grupo de estudantes ganhou e foi executado com investimentos da prefeitura. O museu d´Orsay em Paris foi uma estação ferroviária, assim como o museu de arte contemporânea de Berlin. Uma vez li uma entrevista do Roberto Mangabeira Unger e ele dizia que o Brasil era o país do mundo mais parecido com os EUA. E um exemplo dado era essa prática de destruir o velho e levantar arranha-céus. Tenho que concordar com o professor de Harward. Isso pra mim é negativo, mas certamente para muitos maringaenses pode ser um elogio. Pobre de nós, civilizados (?)... Mas isso incentivou o ressurgimento do Chave de lá: um suspiro!? Talvez resistência e criação de formas de sobrevivência em meio ao descaso, à ignorância e à força do dinheiro e da especulação imobiliária. A vida segue em exclusão. Como Marina W, queria ser um urso, imbernar numa caverna profunda e sair só depois da Copa do mundo...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A palavra de Jesus Cristo a minha porta

Há alguns dias atrás dois jovens senhores, engravatados, tocaram minha campainha sorridentes. Eram religiosos testemunhas de Jeová que queriam pregar a palavra. Ocupada, escrevendo, disse que não entendia nem falava muito bem a língua alemã, mas que era cristã e agradecia a visita. Perguntaram de onde eu era, deixaram um panfleto da igreja e foram embora. Eis que hoje, mais de 15 dias depois, missionários da mesma igreja tocam a minha campainha e se apresentam em bom português, dizendo que sabiam que aqui morava uma brasileira. O interessante é que eles subiram direto, sequer interfonaram. Eu estava à vontade em casa, trabalhando no computador, e não me senti disposta a convidá-los a entrar, coisa que meu pai fazia sempre. Coincidentemente, hoje faz 3 meses que meu pai morreu e me dei conta disso na conversa, ao falar da crença dele, também protestante, e de um tio que é testemunha de Jeová, e que me mandou um e-mail muito bonito depois do desencarne do meu velho. Eu não gosto de religião. Acho que tosa muito as pessoas. Mas meu cristianismo é inevitável. Entro sempre em igrejas com muito respeito, ajoelho e rezo. Aliás, gosto muito de entrar em igrejas. Sempre que uma "atravessa" meu caminho, se tenho tempo, entro. Nunca tomei hóstia por não ter acabado o curso preparatório. Tive formação espiritualista e acredito em muita coisa do kardecismo. Assim como as meditações do Brhama Kumaris me fizeram um bem danado certa época no Rio de Janeiro. Os testemunhas de Jeová foram perseguidos pelo nazismo. A doutrina não aceita transfusão de sangue e isso é coisa que não entendo. Meu pai recebeu sangue antes de morrer e eu não seria capaz de impedir, por uma crença religiosa, de tentar salvá-lo. Aqui na Alemanha, as pessoas pagam um imposto especial para a Igreja que fazem parte. O cidadão precisa se desligar oficialmente da religião para não pagar mais impostos. No Brasil a coisa é bem diferente, já que o governo dá incentivo fiscal e é bem fácil abrir um templo religioso. Certa vez li uma lista absurda de igrejas brasileiras. Seus representantes reacionários (quase sempre) estão na TV e tem uma bancada política admirável. Tenho nojo dessa mistura: política com religião.

Mas voltando pra visita a minha porta, a moça de Maceió quis encontrar uma via de acesso na conversa e me perguntou se eu já havia sofrido algum tipo de preconceito, ao mesmo tempo que me ofereceu uma revista da sua igreja (foto). Eu fiz cara de quem estava pensando, mas já negativamente, quando ela disse: "Você tem mesmo cara de alemã...!" Então imaginei que esse talvez fosse o ponto de acesso que eles tenham encontrado para abordar os brasileiros em Berlin. Certamente é muito mais fácil converter alguém que sofre preconceito fora de seu país ou passa por uma depressão. Não importa, eles faziam o trabalho deles e eu os tratei com respeito e simpatia. E lembrei das visitas que os testemunhas faziam ao meu pai: eram tão boas, eles conversavam horas a fio. E meu pai era um filósofo de rua, dizia coisas bem profundas às vezes. Contrariando as crenças do casal a minha porta, já que os testemunhas de Jeová não acreditam na vida após à morte, mando essa energia terrena boa da visita deles pro meu pai, onde quer que ele esteja agora... e que assim seja! Amém...  

domingo, 18 de abril de 2010

Eficiência do tempo

Desde que cheguei na Alemanha admirei a eficiência dos meios de transporte. Em cada ponto de ônibus, por exemplo, o passageiro tem os horários exatos de cada ônibus que pára ali, inclusive aos sábados, domingos e feriados. Já notei um motorista fazendo hora no ponto, talvez por estar adiantado. Todo o sistema de transporte é interligado e administrado pela BVG. E uma estratégia que me ensinaram e que me deixou admirada, foi o serviço oferecido no site. O usuário indica os endereços (de onde se está e para onde se quer ir), os horários que se quer sair ou que se quer chegar ao destino, e o sistema oferece as opções de transporte e os minutos exatos da demora. Achei isso incrível, ainda mais depois de experimentar e ver que realmente funciona. Até por isso, me lembrei de quando morava em Niterói e tinha que estar na Urca ás 9:30 da manhã para apresentar comunicação num congresso que acontecia no Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ. O receio de não chegar em tempo me fez sair de casa bem mais cedo: era arriscado demais e o compromisso importante. Certamente é muito melhor morar numa metrópole que oferece um sistema de transporte digno e com uma eficiência de tempo que beira o absurdo. Aqui, a ausência de um carro é imperceptível. Carro é luxo puro pros habitantes de Berlin...!

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Os vizinhos movie makers e seu Time´s up

Berlin cedia um festival de cinema e o casal do apartamento debaixo me convidou para ver o filme deles. Um curta-metragem de 15 minutos. Eu já disse aqui no blog que Berlin é super cinema e que é coisa comum ver produções acontecendo  no meu cotidiano. Aliás, há uns 2 meses fui numa vernissage onde também faziam uma produção e acabei, sem querer, fazendo figuração. O prédio onde eu moro é cheio de artistas jovens e idealizadores. Nossa relação é estreita, mas não tão intima como seria possível numa vizinhança no Brasil. Lembro da Madalena em Maringá e da comunidade paranaense em São Paulo: nada se compara à cumplicidade do brasileiro. Mas enfim, fui ver o filme e foi o primeiro que assisti do casal Marie Catherine Theler e Jan Peters. Feito em super-8, Time´s up é uma autobiografia do casal, com comentários irônicos, cortes rápidos e imagens coloridas, que conta a história do recebimento da notícia da gravidez dela. É um filme sobre o tempo e o quanto ele é relativo. Hoje Tilda tem cerca de um ano e meio e no final eu disse pra eles que esse era o documento mais bonito e sincero que eles poderiam deixar pra garotinha. Imaginei ela vendo o filme aos 10 anos de idade. Muito legal mesmo. E as cenas mais interessantes foram feitas com uma fita métrica, a torre de TV de Berlin ao fundo e a barriga de Marie (como na foto de divulgação aqui ao lado). Durante toda a gravidez eles foram no mesmo lugar e mais ou menos na mesma hora do dia, coletar imagens, que depois foram coladas em ritmo acelereado e ficou genial, porque no fundo, aparecia também o prédio do governo da falecida República Democrática Alemã, que estava sendo demolido. Enquanto a barriga crescia, o prédio desaparecia...
Depois veio o documentário Lychener 64, que é um endereço em Prenzlauer Berg, região oriental da cidade que depois da queda do muro sofreu uma transformação absurda pela especulação imobiliária. O filme de Jacob Rühle, um jovem de 34 anos, é um esmero. Foram mais de 4 anos coletando depoimentos dos moradores desse endereço e das autoridades responsáveis pela "expulsão" dos moradores. A sala do Babylon estava lotada (era a primiere desse filme). Ele intercalou as imagens atuais, de 2005 a 2009, com as de programa de telivisão da DDR exaltando a reconstrução e reformas dos seus prédios, com o discurso comunista. Os moradores resistiram, uns mais outros menos. Alguns ficaram no prédio até o último momento, quando as paredes dos vizinhos já eram postas abaixo. Traços das vidas de cada um foram desenhados. A perda do sentido de comunidade desabou com as paredes do prédio. Investidores de Hamburgo e Leipizg interferiram na vida de uma coletividade cada vez mais rara no sistema capitalista. Um relato da História de Berlin, bem contada, com toques de ironia e sátira. E no final, mesclando imagens do resultado kitch-chic do prédio novo lançado em setembro de 2009 com o áudio do programa de TV da DDR, vê-se que o discurso de exaltação do novo, do moderno e eficiente, é comum aos dois sistemas. Aí lembrei de um comentário do Marshall Berman em seu livro "Tudo que é sólido desmancha no ar", título que é a apropriação de uma frase de Marx, relembrando a construção de residências destinadas à classe operária em meados do século XIX na Inglaterra. A dupla do Manifesto Comunista indignava-se com a fragilidade dessas construções, que não durariam 40 anos, segundo eles. Os moradores da Lychener 64 não se importavam de ter que sustentar os fornos à carvão no inverno. Nem de terem uma cozinha sem porta ou um banheiro coletivo. Tudo funcionava em comunhão. O novo, novíssimo é capaz de destruir a velha comunhão entre os seres humanos. E foi o que aconteceu em Prenzlauer Berg.   

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Madame Anneke, soldada e sufragista

Essa caricatura foi publicada em um jornal reacionário na época da Revolução de 1848 na Alemanha. Mathilde Anneke era uma mulher alta, grande e acompanhou o segundo marido, que tinha sido do exército prussiano, nos campos de batalha. Mas antes disso, aos 20 anos, ficou famosa por defender-se pelo jornal de Colônia, conquistando o divórcio e a guarda da filha que teve com um nobre. Ela desistiu do casamento e seus argumentos na imprensa lhe deram fama. E claro, uma mulher agir assim em pleno ano de 1837 era coisa inconcebível. Dái o sarro da caricatura, onde ela senta no cavalo como os homens faziam. O enlace com Frtiz foi também ideológico. A patota em Colônia incluia Karl Marx e Engels, que mantinham um jornal opositor. Tanto que eles foram presos junto com o eleito de Mathilde. Sufocada as tentativas revolucionárias que incluiam a unificação da Alemanha (que só ocorreu em 1871), os autores do Manifesto Comunista seguiram exilados para a França e depois pra Inglaterra. O casal Anneke seguiu para a Suiça e depois para os EUA. E foi lá que essa mulher tornou-se uma das líderes da luta pelos direitos das mulheres.
Estudar as mulheres do passado, me traz um peso enorme nas costas. Sinto que fica, a cada dia, mais difícil ser mulher: não deveria ser o contrário??

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Diálogo preocupante

Desde que comecei a frequentar as piscinas públicas em Berlin, encanei com a falta de exame médico. Eu nadei em muitos lugares no Brasil. Em Maringá na minha terra natal, todo ano era obrigatório atualizar a dispensa médica. É certo que o exame coletivo era sempre motivo de piada, pois daquele jeito não era possível detectar nenhum problema de pele. Depois no Caio Martins em Niterói e na ACM do centro do Rio, a mesma coisa: exame médico pra nadar. Aqui, qualquer pessoa entra nos banhos públicos sem precisar de exame, simples assim. Já nadei em várias piscinas e nunca houve empecilho.
Eis que ontem, depois da natação de noite na Stadtbad Neukölln,(quando a entrada é mais barata: 2 euros depois das 20hrs), estava no vestiário começando a me trocar na cabine individual, quando ouvi o diálogo em inglês. Uma das mulheres disse estupefada: "Nossa, o que é isso? Está muito sério, você deveria procurar um médico imediatamente!" A outra tentou amenizar, disse que logo ia passar. Mas a sua interlocutora não se deu por satisfeita e voltou a dizer que estava muito feio, e que um médico naquele caso era imprescindível. Eu ouvi atônita e curiosa. E relembrei da garota na mesma piscina que eu, minutos antes. Elas não eram alemãs e tinham um sotaque norte americano. Lembrei do filme do Michel Moore, Scico (?) sobre o sistema de saúde nos EUA. Ou os alemães confiam muito na saúde de seus cidadãos, ou é mesmo descaso. Enfim, fiquei cabreira e curiosa. Mas não vou deixar de nadar por isso.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Quando Beethoven renasceu no Chile

No ano passado participei do congresso promovido pela Universidade Livre de Berlin e pela Alexander von Humboldt University, dos EUA, intitulado: "Travels Between Europe and the Americas." Mas não quero falar aqui da minha apresentação e sim, da escritora chilena Isabel Lipthay, que atualmente mora em Münster. O título do trabalho dela me instigou: “De cómo Beethoven escapó de las bombas lacrimógenas en Chile.” E na verdade, a fala dela ultrapassou a mera a apresentação oral. Ela tinha um vestido colorido, típico da América Latina e também um sorriso sincero e lúdico. Através de um telão, ela mostrou trechos de um documentário em processo de finalização, do diretor norte-americano Kerry Candaele. Eles voltaram ao Chile em 2007 com o intuito de levantar depoimentos sobre a "Ode à Alegria", poema de Schiller, escrito em 1785, que inspirou Beethoven em sua nona sinfonia. A música de Beethoven recebeu uma letra especial, que naquele contexto, signficava liberdade. O músico alemão lançou-a em 1824, em Viena. De lá pra cá, a canção rodou o mundo, foi traduzida em diversas línguas e adquiriu inúmeros significados. Um trailler do filme pode ser visto aqui. Aliás, no início, Isabel historicizou o uso dessa música na Alemanha, inclusive pelo nazismo. No Brasil ela resurge no Natal, já que sua tradução para o português, fala de paz e irmandade entre os homens.
Mas o interesse de Isabel Lipthay era falar da canção de Beethoven durante o movimento de resistência no contexto da queda de Salvador Alende, em 11 de setembro de 1973 e também durante a ditadura de Pinochet. A canção significava oposição no Chile e também foi cantada por ela. Vítima da ditadura, exilada política, hoje ela considera Münster sua terra. Conforme ela mesma frisou, é lá onde ela plantou uma maciera no quintal e também amigos. A performance dela provocou emoção, quando em frações de segundo, se sente os pelos dos braços se levantarem, arrepiados. Foi um depoimento, enfim. E no final ela cantou, lindamente, foi aplaudida e assediada pelo público. Eu tive vontade de abordá-la, dizer algo e lhe dar um abraço, mas preferi me calar e segui pra outra sessão. No último dia do congresso foi oferecida uma viagem à Weimar e nos encontramos no trem. Então pude dizer e me solidarizar. A ditadura militar no Chile foi certamente a mais violenta da América Latina. Foi tardia, se compararmos com a brasileira. Muitos dos nossos intelectuais de esquerda, como Darcy Ribeiro e Miguel Arrais, foram exilados no Chile e até participaram do governo Allende. E no 11 de setembro latino americano, o palácio do governo foi bombardeado com o ostensivo apoio dos EUA. Morria o presidente socialista eleito democraticamente pelo povo chileno, Beethoven era ressuscitado e Isabel fora obrigada a deixar sua pátria rumo a Alemanha.   

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Produto do mundo

Observei numa peça de roupa comprada na loja de departamento H&M em Berlin, a quantidade de informações contidas nas etiquetas. Prova concreta do processo de globalização e da circulação das mercadorias ao redor do mundo, afinal são 22 línguas informando que o produto tem 95% de algodão e 5% de elastano e ainda como ele deve ser lavado. Foi produzido no Siri Lanka e tive o maior cuidado na hora de passar a tesoura pra retirar as tais etiquetas da peça. Além das líguas da União Européia, aparecem as informações em japonês, finlandês, slovaco, coreano, russo e árabe, além das ciglas UH (húngaro?), PL (polonês?), SE e SI (sírio?).
Eita mundão de meu Deus!!

domingo, 11 de abril de 2010

Batucada contra energia nuclear

Não foi a primeira vez que a Baixada Berlinense particpou do protesto. Convidado para animar a passeata em Mitte, região central de Berlin, o grupo foi munido de tambores e alegria. Eu fui apenas em um ensaio e meu endereço de e-mail já caiu na graça do grupo: fui convocada pro protesto de sábado, 10 de abril. O mesmo aconteceu em cerca de 50 cidades ao redor do país e contou com ativistas da ecologia, mas também de partidos como Die Linke, SPD e o Grüne, ou seja, a esquerda, o partido social democrata a os verdes. A gente se reuniu às 10:30 na frente da Vattenfall, que é a empresa de energia que atua em todo norte da Europa e se vale da energia nuclear. Uma demonstração oficial e pacífica, por isso, com o concentimento e a proteção da polícia alemã, que esteve em todo o trajeto. Os organizadores distribuiam, em troca de qualquer moeda, fitas amarelas (última foto) com imagens da corrente de gente e a frase: "Desliguem a energia atômica", em preto. Tinha velhos e jovens, famílias inteiras acompanhando o protesto, também cadeirantes e bebês de colo. Um carro de som já havia trazido os tambores e foi preciso esquentar com o som, pois fazia frio: um pé de vento gelado e no último minuto da passeata, logo depois da fala dos organizadores, choveu. Entre insegurança e concentração, meu olhar esteve sempre na mestre, Débora Saraiva, que me ajudava a tocar certinho (ou melhor, a fazer o barulho corretamente..hehe). Foi tudo muito legal: as pessoas dançavam, aplaudiam e tiraram muitas, muitas fotos da passeata. Tinha até cachorro com cartaz no pescoço.
Uma das imagens que mais estampavam os cartazes era essa: "Força atômica? Não, obrigada." E mesmo com o envolvimento partidário, eram poucas as bandeiras dos partidos políticos envolvidos. Os participantes fizeram uma longa fila em marcha, de mãos dadas e unidos também com a fita amarela e preta, enquanto passávamos batendo tambor e alegrando o povo. É o que eles chamam de corrente de gente. Os jornais hoje falam em 1.200 participantes. Tinha outro grupo de jovens percurssionistas que ficou mais pro final da caminhada. Um rapaz de bicicleta e auto-falante dava o ritmo da marcha, que teve mais ou menos um quilômetro e meio de percurso. O auge foi quando passamos por baixo da ponte da Friedrichstrasse, uma estrutura de ferro antiga que deu uma acústica arrepiante. Paramos lá embaixo, porque a mestre nem é boba nem nada, e fizemos um groove que arrancou sorrisos do grupo. Os turistas dançaram e fizeram muitas fotos, assim como os próprios participantes e a imprensa. E foto foi o que não fizemos. Então fico imaginando por onde estão as imagens da Baixada Berlinense mundo afora...

sábado, 10 de abril de 2010

Reciclagem consciente

A grande maioria das garrafas descartáveis (tipo pet) na Alemanha, são recicláveis. Até aí tudo bem, mas o que me chamou mesmo a atenção foi a forma como a coisa funciona. Quando as pessoas compram refrigerantes, sucos ou mesmo água no supermercado, elas consomem também o compartimento de plástico que é super poluente. Entretando, os supermercados de médio ou grande porte, são equipados com máquinas que recebem esse material das mãos do próprio consumidor. Funciona assim: as garrafas que são admitidas no sistema possuem no rótulo a frase "Pfand zurück" , algo como depósito retornável, ou simplesmente têm o símbolo estampado.
 Então, os consumidores se dirigem até a tal máquina e vejo quase sempre fila de pessoas com sacolas de garrafas vazias. De uma em uma, a garrafa é colocada num buraco e lá dentro, o sistema identifica através de uma espécie de scanner, que tipo de garrafa é, aceitando ou eliminando, já que não são todas que fazem parte dessa parceria. Notei que as garrafas de água mineral importadas da Turquia por exemplo, não são aceitas. Num visor ao lado, é mostrado o valor a ser creditado ao consumidor.Uma garrafa grande de suco, por exemplo, dá um bonus de 25 centavos. Já as pequenas de coca-cola, 15 centavos. Pois bem, quando todas as garrafas foram colocadas e identificadas pela máquina, o consumidor aperta um botão verde e em alguns segundos um ticket, desses de supermercado, sai da máquina com o valor total que poderá ser usado para as suas compras no mesmo supermercado. No caixa, a funcionária diminui a quantia que consta no ticket, do valor da compra final. Simples assim. E cidadão. Isso é tão corriqueiro e comum, que é programa de família, já que observei certa vez, uma garotinha na fila da máquina, afoita em querer ajudar a mãe nessa tarefa. Já vi também velhos moribundos com sacolas cheias de garrafas.
Daí quando penso numa estatística divulgada com orgulho no Brasil, de que somos o campeão em reciclagem de latas de alumínio, me entristeço. Isso reflete um problema social sério, já que muitas pessoas vivem dessa atividade ou tem nela como um complemento da renda. Uma empresa carioca, na Glória, no ano passado, pagava 10 centavos pelo quilo de alumínio: valor vergonhoso, devo admitir.  Lata de alumínio é coisa rara na Alemanha. As garrafas de cerveja têm em média 500 mls e passam pelo mesmo sistema da máquina, mas também há lojas que vendem bebidas que aceitam as garrafas vazias como pagamento. A mais comum vale 14 centavos de euro. Já vi pessoas andando nas estações de metrô, com maletas de rodinhas recolhendo garrafas, provavelmente para complementar a renda também. E como em Berlin é comum e cool sair pra balada portanto uma garrafa de cerveja na mão ou caminhar pelas ruas bebendo no bico, é bem fácil encontrar nos cantos e nas latas de lixo, garrafas vazias que valem dinheiro.
Certamente esse bonus estimula as pessoas a guardarem as garrafas e levarem pra máquina. É justo, consciente e cidadão. Então me lembro de quantas vezes torrei o saco de amigos e familiares que sequer separavam o lixo orgânico do inorgânico no Brasil. Aqui, se os moradores do apartamento não o fazem, estão sujeitos à multa. Quando se mexe no bolso, para benefício ou malefício do cidadão, a coisa parece funcionar.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

"April, April, macht was er will..."

A expressão serve pra explicar as condições climáticas do mês de abril na Alemanha. "Abril, abril, faz o que ele quer", afinal, céu azul com sol ou chuva com céu nublado convivem harmoniosamente esses dias. Calor e frio, e a gente fica com vontade de tomar um sorvete sentado na grama do parque ou talvez um capuccino no aconchego de uma cafeteria.

Da minha janela percebo as mudanças. E tem outra aqui, mas no computador, no windows, que me espera.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

O Brasil na TV alemã

Eu estava lendo na sala quando fui chamada aos berros para ver a notícia da TV. Jornal das 19 horas, em canal público. Vi imagens terríveis de morro desabando, ruas que pareciam o mar e uma multidão de microfones ao redor do presidente Lula que deu uma explicação. Segundo a tradução da notícia, o presidente brasileiro pediu para o povo rezar. Entrevistaram um jovem senhor que (por acaso?) vestia uma camiseta de time de futebol com a marca Siemens estampada grande na frente, e ao lado, o símbolo da Adidas. Pelas corres, imaginei que fosse um botafoguense. Pensei no poder da edição e das imagens quando vi outra notícia sobre o desastre na China, onde uma mina de carvão desabou: a coisa foi noticiada uma semana depois e editada cautelosamente. Mas voltando à notícia sobre o Brasil,  na tradução da sua fala, o cara com a camisa de time de futebol, questionava a falta de infra-estrutura de uma cidade que cediará a Copa do Mundo de futebol em 4 anos. Somada às Olimpíadas, haja força pra suportar o peso nos ombros que esses dois eventos trarão pro país. Um país que o mundo quer ver acontecer...

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Imagem de mulher

Encontro pela casa um livro. Reparo na imagem da capa do livro de Amin Maalouf. É sobre a guerra com os árabes: entre a cruz e a espada, a mulher de tranças loiras foi cristianizada; montada no cavalo, não de ladinho como se esperava das ladies de outrora. Os germânicos tinham as pernas arqueadas por montarem desde a infância. Eram os bárbaros que tinham arona de cebola e alho, como se ensina pelos livros didáticos.

Que imagens se fazem das mulheres no mundo? Quais fizeram? E quando uma mulher ama outra mulher? Debate na blogosfera e a Lola percebendo os insultos à Morango. O mundo virtual apavora e me satisfaz.
O olhar do casal relativisa tudo. Casal é quem casa?
Casal de pai e filha? A história da infância é recente, assim como a da adolescência. O cristianismo trouxe  culpa e tratou de atrocidade o que era o desejo do corpo. Vejo nos olhares do casal com armadura, montado à cavalo, o amor romântico.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Sobre coisas úteis, mas supérfluas

Desde a primeira vez em que estive num supermercado de Berlin, notei a existência de produtos supérfluos. A quantidade de parafernalha de cozinha, por exemplo, beira o absurdo pra mim, que gosto de improviso e sou um tanto minimalista. Talvez esses utensílios sejam úteis no dia-a-dia, principalmente para quem passa muito tempo na cozinha, o que não é meu caso. Mas por outro lado, é preciso incentivar o consumo, e essa é a alma do capitalismo, não é mesmo? O uso específico de algumas coisas me faz rir. Vou exemplificar. Existe um produto feito única e exclusivamente para fazer um furo na casca do ovo, antes de ser levado na água para ser cozido. É de plástico, redondinho e com um movimento a pessoa faz o furo. O mesmo resultado pode ser alcançado com uma faca afiada. Aliás, nunca vi ninguém no Brasil furar a casca antes de cozinhar o ovo. E por falar em ovo, existe também uma máquina elétrica para cozinhar ovos, com a qual a pessoa pode escolher a consistência deles: moles ou duros. Num lugar em que é costume comer ovos no café da manhã, até que isso não é ruim, mas vejo como tralha, já que com uma caneca e água no fogão se chega no mesmo resultado. Outro exemplo é uma tampinha de plástico do tamanho da lata padrão de sardinha. Pra não dizer que é inútil, prefiro usar o conteúdo todo da lata ou talvez embrulhá-la num papel laminado. Posso estar sendo radical, mas pra quem vive sem forno e panela de pressão há mais de 4 anos, a vida vai ficando simples. Tem um amassador de batatas que é um trambolho e só serve pra isso. Mas tem a máquina de ferver água que agiliza bem quando se tem pressa.  Eu tirei uma foto bem sem vergonha do que pra mim foi o campeão de utilidade supérflua: um guardador de banana! Em várias cores e por apenas 1 euro e 99. Tudo bem que é fácil amassar uma banana quando transportada, mas existem tantas outras formas mais criativas para se proteger uma banana dentro da bolsa...!
 Esse é um produto que eu não queria ter em casa nem de graça...:)
  

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Um Hitler ajoelhado

Estava muito frio. Neve e vento. Então eu e Laurence entramos na Haus der Kunst, um museu no centro de Munique, também pra usar o toilete e fazer uma ligação. Infelizmente não tínhamos tempo de visitar o acervo. Mas no caminho para o banheiro, percebi imagens afixadas no imenso corredor e uma em especial me chamou a atenção: Adolf Hitler ajoelhado e rezando, compadecido e com um olhar arrependido que incomoda. E incomodar parece ser a principal proposta do artista e também curador italiano Maurizio Cattelan. Entre suas obras, estão uma escultura de um papa atingido por um meteorito e crianças enforcadas numa árvore. Então tirei uma foto da foto que vi e posto aqui.

domingo, 4 de abril de 2010

Onda Bio-vegana

Existe um selo estampado nos produtos levando a marca Bio. De batatas ao leite, tudo que leva o selo é mais caro nos supermercados. Por exemplo: uma caixa de leite normal, custa em média 48 centavos de euro. O que leva o selo Bio, custa 98 centavos. É que as vacas que produzem o leite bio, não são confinadas e comem ração livre de agrotóxicos. A cenoura, a salcinha, os ovos, o milho, o iogurte, a carne, enfim, os produtos bio são especiais. E tem mesmo uma onda na Alemanha de incentivo à comercialização desses produtos. Esses dias fui comprar cenouras e o pacote de um quilo, bio, era apenas 30 centavos mais cara. Por isso optei por elas. Já o leite, não me importo e compro sempre o mais barato. O gosto dos ovos bios, é diferente dos "normais". Usando esse adjetivo para os ovos, normais, penso na inversão de valores nessa troca mercadológica: o natural deveria ser mais barato. Mas aí tem o quesito durabilidade e tal. Os produtos com agrotóxicos resistem mais, isso é fato.
Então percebo cada dia que passa mais pessoas conhecidas que se dizem veganas: os vegetarianos radicais, já que não se alimentam de nada que tenha origem animal, como mel, leite, ovos e naturalmente carne. Receitas são comercializadas em revistas especializadas. A moda do "slow food" também têm adeptos em expansão. Um movimento contrário ao fast food, ou seja, a cozinha como um espaço de convivência e certa integração social, em que as pessoas curtem o prazer do ato de cozinhar, sem pressa ou pressão. E numa cidade como Berlin em que se vê manifesto por todos os cantos, essa área não poderia ficar de fora. Essa imagem da vaca na foto, estava posicionada dentro do vidro, no canto, onde fica o mapa da cidade, na estação de metrô aqui perto de casa. Fiquei imaginando as mil artimanhas da pessoa responsável por isso, já que o vidro estava intacto e tal. Talvez tenha sido o próprio funcionário do sistema de transporte o responsável pela fixação da caricatura. Enfim, especulações à parte, deixo o manifesto da vaca misteriosa, que diz, no inglês universal: "Foda-se: coma a si mesmo!"

sábado, 3 de abril de 2010

A Pop arte não polpa nada nem ninguém

A figura mais emblemática da Pop arte certamente foi Andy Warhol. Sua produção não polpou nada e nem ninguém: de Marilyn Monroe à Mao Tse-tung, da rainha da Inglaterra ao rei do futebol, de Jesus Cristo ao fetiche do sapato de salto alto feminino ou às latas russas de sopa. O Museu Brandhorst em Munique foi construído especialmente para abrigar a coleção particular do mecenas alemão Udo Brandhorst, e muitas obras de Warhol estão em seu acervo. Através de um concurso arquitetônico, foi escolhido o projeto. Gostei muito dessa inversão das coisas. Um prédio foi pensado de acordo com o acervo que o abrigaria. E isso, no resultado final, faz toda a diferença. A sala gigante do último andar com as obras do pintor norte americano Cy Twombly é o exemplo maior desse movimento: fica difícil imaginar as obras em outro lugar ou em outra posição que lhe é tão própria. O valor de um euro de entrada é simbólico mesmo. Ver uma escultura de Ron Mueck, que eu só conhecia pelos livros, foi emocionante (foto). Como é real e perfeito os corpos humanos, uma mulher parida com o bebê e o cordão umbilical ainda ligando os dois seres. Sigmar Polke em sua ilustração da liberdade, igualdade e fraternidade incomoda e satisfaz (foto). E os símbolos do comunismo não ficaram de fora do olhar de Warhol: sem eles, penso que sua obra seria incompleta.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

A esquerda radical

São várias as organizações. De linha sindical às organizações de bairro. Jorge é filho de portugueses e se estabeleceu na França. Conheci a figura em Paris há dois anos, quando nos deu a chave do conjugado onde mora o amigo itlaiano, tradutor da United Nations que estava fora por uns dias. Os comunistas existem mesmo: tenho muitas provas. O Jorge  veio passar um tempo em Berlin com a esposa, Nadia e a filha de 6 anos: uma fofa. Lembro que foi na casa dele que bebi o famoso absinto pela primeira e única vez. O papo rolou noite à dentro no bairro onde tem travestis nas esquinas. Isso em Paris. Ele me contou causos sobre o presidente Charles de Gaule que a história pouco enfrenta. Como uma emboscada planejada por ele em 1961 quando mais de 300 pessoas morreram e foram lançadas no Sena na calada da noite. Ditaduras se instalando mundo a fora e a esquerda francesa não iria se calar em plena Guerra Fria. Pagaram um preço alto por isso. Aí ele me disse que tinha conhecido uma galeria aqui em Neukölln que leva o nome de uma comunista alemã que morou no Brasil. Ele não lembrava o nome e eu logo sugeri: Olga Benário Prestes? Sim, a própria. Ele me disse que há 2 semanas atrás um grupo da esquerda organizou um protesto silencioso no bairro. Disse que o evento foi criado em represália aos neo nazistas de Berlin, mais especificamente do sul de Neukölln, que em determinadas madrugadas fazem arruaça, jogam tinta e quebram janelas dos apartamentos das minorias. Adolescentes, enfim. Confesso que essa informação foi uma grande surpresa pra mim. No evento que ele participou, os manifestantes se encontram num bar que é o nicho da resistência e aí seguem pelas ruas, numa passeata silenciosa, param em frente aos prédios e realizam discursos e debates. Foi assim que ele conheceu a galeria Olga Benário. E eu fiz o resumo triste da trajetória dessa mulher. Jorge é mesmo uma figura. Há 15 anos foi  ao México participar de uma marcha do moviemento zapatista e conheceu o famoso comandante Marcos em Chiapas. Contou suas aventuras nas montanhas frias mexicanas à procura de pouso e alimento. Me "apresentou" o enigmático escritor B. Traven, de provável origem alemã que se estabeleceu em terras mexicanas. O jantar de domingo foi bastante acolhedor e intenso. A ponto de Annete, a filhinha de 6 anos adormecer no sofá e dormir profundamente. Eles voltaram pra casa à pé, no meio da madrugada com a menina nos braços.
Deixo aqui no blog imagem de um cartaz anarquista afixado numa parede no centro de Viena. Traduzindo do meu jeito: "Agora mesmo! Viver com sabotagem. Grupos anarquista e autonomo de Viena"

terça-feira, 30 de março de 2010

Meu tempo é assim

Três dias por semana: 5 horas na biblioteca, com 15 minutos pro lanche.
Duas xícaras de café por dia acomphadas com um cigarro.
Ontem mal comi e não tomei banho: os prazos se apertam.
Não tenho tempo pra comprar o líquido que tira o esmalte e minhas unhas têm manchas cor de rosa.
A noite cai trazendo a lua cheia.
Berlin é linda com sol.
As pessoas são lindas com sol.
Caminho pela cidade como quem vê com a sola dos pés.
Minhas amigas casadas parecem longe. Meu mundo parece querer ficar sozinho. Lembro de Rilke e suas solidões.
Divago pra esquecer das palavras, depois da escrita como compromisso. Tenho sonhado com construção de frases e articulação do material coletado.
Assito Tv e ouço rádio, aber mein Deutsch ist kaputt...: )
Eu faço ciência ao observar o mundo.
Os fatos históricos são apenas fatos históricos.
Auguste Comte não acreditava na medicina do século XIX. Seu positivismo achou que o seu organismo se recuperaria por si só. Morreu agonizando e Nísia Floresta tentava convencê-lo ao tratamento. Ela acreditava na homeopatia.
Tomo água da torneira, em temperatura ambiente.
Aqui a temperatura oscila entre os 7 e 21 graus positivos.
Mandei a papelada hoje e agora estou relaxada. Penso em nadar.

Angela Merkel está em Stambul indo para Ankara. Os turcos têm poder na Alemanha. Os turcos, os árabes, os libaneses de Berlin, são os baianos, paraibanos e cearences de São Paulo.

sábado, 27 de março de 2010

Post como exercício: pensando nas influências políticas de Mathilde Anneke

Karl Marx foi obrigado a deixar a Alemanha pela primeira vez em 1843. As mudanças que se esperava com a ascenssão de Frederick William IV como rei da Prússia em 1840, foram frustradas. Tal rei, acreditava no direito divino de governar e rejeitou as sugestões de constituição prometidas por seu pai. Dizia que um pedaço de papel não poderia estar entre ele e seus súditos. Na época Marx estudava na Universidade de Berlin e por criticar o governo, foi perseguido pela censura e obrigadado a deixar a Prússia. Em Paris conheceu Heinrich Heine, poeta de língua afiada que ousou criticar Goethe. Heine era de família judia e viveu boa parte no exílio; recusou a cidadania francesa por amor a Alemanha. Mas não teve identidade consistente com nenhuma tendencia política; denunciou autores que se vendiam para o mercado e para o sistema existente. Era evidente que nos anos que antecederam à Revolução de 1848, a cultura tornou-se politizada: a produção em prosa e verso passou a ter forte conteúdos político e social, denunciando a pobreza no campo e a exploração dos trabalhadores.
Eis que no início de 1848, Karl Marx retorna à Alemanha se estabelecendo em Colônia, onde funda um jornal com Engels. Vinda de Münster e recém-casada com Fritz Anneke, Mathilde também se estabelece na cidade. A escritora e jornalista já era conhecida, também por ter publicado um artigo em defesa de Louise Astor, banida de Berlin em 1846 por manter um comportamento considerado inadequado a uma mulher. Então os destinos de Mathilde Anneke e Karl Marx se cruzaram. Liberais, republicanos, libertários, comunistas em gestação, enfim, as vozes que eram contrárias ao sistema político que ainda mantinha características absolutistas, se encontravam em Colônia. Tanto que foram lá as primeiras manifestações contra o governo prussuano iniciadas em 1848. Jornais foram fechados, pessoas foram presas, entre elas o marido de Mathilde. E ela tomou a frente da publicação e continuou na defesa dos seus ideais. Estava grávida de 7 meses nessa ocasião. O jornal foi censurado e fechado. Meses depois, em setembro, ela publicou apenas dois números do Frauen-Zeitung, antes de ser silenciada pelas autoridades. Defendeu o marido nas páginas dos jornais. Em dezembro Frtiz é libertado. Marx e Engels publicavam o Neue Rheinische Zeitung, algo como Novo Jornal do Reno e por conta da censura foram obrigados a fechar o jornal e deixar a Alemanha em maio de 1849. Enquanto Marx e Engels seguiram para Paris e depois para Londres, o casal Anneke seguiu em exílio para a Suiça e depois para os EUA.

Deixo uma foto minha no colo de Marx e Lebrão entre as pernas de Engels em Berlin:

     

sexta-feira, 26 de março de 2010

A linda Chimamanda Adichie

Depois que vi esse vídeo, senti que elegi essa mulher minha porta voz. Chimamanda Adichie é escritora e fala do perigo da história única. Fala de um jeito especial ,com um viés biográfico especial.

Aconteceu mais de uma vez. Quando sou apresentada a alguém, ou quando simplesmente me apresento e segue-se toda aquele primeiro diálogo, a pessoa diz que é da África. E eu então fico instigada e pergunto, mas de que cidade, de que país da África? Então penso no perigo da história única... 

quarta-feira, 24 de março de 2010

Mudanças de guerra

As duas mulheres enfocadas no meu trabalho de pesquisa viveram a realidade da guerra civil. A família de Nísia Floresta mudou-se para várias cidades do nordeste do Brasil antes de se estabelecer em Porto Alegre em 1933. O pai era português e eram tempos de conflitos em Pernambuco (1817) e da Confederação do Equador de 1824, quando o alvo eram os portugueses na onda de movimentos independentes na América Latina. Advogado, foi assassinato numa emboscada em Olinda, quando Nísia tinha 18 anos. Dois anos depois de ter se estabelecido no sul do país, a Revolução Farropilha obrigada novamente à mudança. Desta vez para o Rio de Janeiro, já viúva, era chefe de uma família composta por mulheres e crianças. Uma vida guiada pelas guerras no hemisfério sul. Do outro lado do mundo, outra vida guiada pela realidade da guerra. A alemã Mathilde Anneke, após participar da Revolução de 1848 ao lado do marido, foi exilada política nos EUA. Lá escreve ativamente nos jornais e faz palestras públicas, atividade que no século XIX praticamente acabou. Com a guerra civil nos EUA (1861-1865), ela novamente cruza o Atlântico (eram mais de 2 meses de viagem de navio...) e se estabelece na Suiça por 5 anos, até quando a guerra acabou, voltando para a América. Mulheres mães, viram alguns filhos mortos e pareciam ter um sentido de família diferente do que era normatizado: casaram cedo por arranjo, mas contestaram essa condição e abandonaram o primeiro matrimônio, atitude escandalosa para uma mulher de elite em qualquer lugar do mundo no século XIX. Escolheram seus amores e com eles criaram uma família.
Mulheres que admiro pela biografia, que persigo pelos livros e contextualizo as vidas... sobre as quais devo escrever ali na outra janela. Os prazos apertam...

segunda-feira, 22 de março de 2010

Kaiser-Wilhelm-Gedächtniskirche

Mais do que uma igreja protestante, o prédio funciona como memorial. A igreja foi construída no final do século XIX levando o nome do pai do rei, William, como uma homenagem. O prédio foi bombardeado durante a Segunda Guerra Mundial e decidiu-se por não restaurá-lo e assim servir como lembrança daqueles anos. Uma nova torre, mais moderna, foi construída ao lado e o efeito dos mosaicos é surpreendente. A igreja fica no centro de Berlin ocidental, próximo ao mais importante centro comercial, onde fica o famoso KaDeWe, a loja de departamentos mais antiga da cidade, fundada em 1907 e que é um luxo só.
Gosto muito desse compromisso assumido pela cidade (e pelo país de um modo geral) com suas mazelas históricas. Encara as feridas de frente, numa metáfora de pouco bom gosto. Há quem diga que é exagero, que já existem monumentos suficientes. Lembro da polêmica sobre a construção do memorial judaico, próximo a Potsdamplatz e que sofreu críticas por estar disposto num terreno enorme e num lugar de valorização imobiliária. Também por isso muita gente diz que visitar Berlin é triste. Não posso discordar: aqui foi capital de um país nazista, regime cruel e desumano. Seu território foi dividido pelos vencedores de uma guerra insana, como num jogo de tabuleiro. Mais tarde seus cidadãos conviveram com um muro que separou a cidade, mas também familiares, amigos e amores. Jovens que tentaram atravessar essa barreira eram alvejados sem dó. Por tudo isso Berlin recebe um ar de tristeza. E a torre da igreja-memorial Rei William é mais um monumento da cidade que faz lembrar. Encarar suas dores históricas não é fácil e Berlin faz isso de forma aberta e quase espontânea, basta caminhar pela cidade.
  

domingo, 21 de março de 2010

Baixada Berlinense

Os ensaios acontecem uma vez por mês. A regente do grupo é a Deborah Saraiva, que com seu apito instrui e estimula o grupo. Fui convidada para participar de um ensaio e foi muito divertido. Em dado momento, quando tocávamos um funk, os olhares e os sorrisos de satisfação do grupo que se olha a todo momento no ensaio, me provocaram uma onda de emoção que meus pelos todos do corpo se arrepiaram. Tão bom quando a música entra na gente desse jeito e o corpo responde, fisicamente. Alma e corpo em sintonia. A Baixada Berlinense é formada por mulheres, brasileiras e alemãs, que se apresentam esporadicamente. Eu toquei agogô e repique nesse ensaio. E encontrei a MC Xuparina, que chegou em Berlin direto de Santa Teresa. Eu conheci a Marcela Maria vendendo cartões entre a Lapa e Santa e foi muito legal encontrá-la além do Atlântico. Deixo algumas fotos do meu sábado musical.

sexta-feira, 19 de março de 2010

Ich bin Ausländerin

A cena se deu numa Wohnung party, ou seja, numa festa de apê. Era aniversário de uma brasileira estabelecida em Berlin. Funciona assim: o convidado leva o que vai beber e o anfitrião faz quitutes, beliscos e comidinhas. Rola música e muito cigarro. O apartamento ficou cheio e eu me revoltei em dado momento ao ver um monte de gente sentada no chão enquanto a música animada me chacoalhava o esqueleto. Mas também porque não tinha mais espaço pra todo mundo e quem senta ocupa espaço de duas ou mais pessoas. Animei a galera que se levantou e começou a dançar (isso faz de mim uma legítima brasileira?) Enfim, me diverti muito e tive um diálogo especial, que dá título ao texto: "Eu sou estrangeira". Já inicialmente eu havia decidido comigo mesma que só falaria alemão naquela noite. Como aqui quase todo cidadão alemão fala inglês, às vezes fico triste por não falar alemão com mais frequência. Eu já estava no segundo copo de vinho, quando um rapaz bonito e polido se aproximou. Me apresentei, falei da minha relação com a dona da festa, quando ele me perguntou se eu poderia falar em inglês ou espanhol. Eu disse que podia me comunicar nas duas línguas, mas que preferia continuar falando em alemão. Foi quando ele me disse que não falava em alemão com estrangeiros. Fiquei surpreendida. Pela primeira vez fui explicitamente tratada como Ausländer, ou seja, estrangeira. Palavra que pode ter um sentido prejorativo. Num misto de indignação e grosseria, eu disse em alemão que por isso não conversaria mais com ele aquela noite. Não preciso falar que foi uma sensação horrível, né? Então até hoje eu fico tentando achar uma explicação para a tal situação. Eu vi como grosseira, a princípio. Mas pode ser também que o cara quisesse aproveitar pra falar em inglês e espanhol (se ao menos fosse em português seria mais compreensível da minha parte). Ou que meu alemão era suficientemente péssimo pra provocar aquela reação no rapaz. Penso que seja complicado para um alemão ver sua língua sendo esculhambada por alguém de fora. É mais fácil esculhambar a língua mãe alheia, no caso a inglesa ou a espanhola. Não sei. Não sei mesmo. Mas aquela foi a primeira vez que alguém jogou na minha cara que eu era uma estrangeira. Logo eu, que me sinto tão cidadã do mundo... 

quinta-feira, 18 de março de 2010

Percepções: Munique e Viena

Eu sempre ouvia que o sul da Alemanha é mais católico, assim como a Áustria. E isso foi logo perceptível. Uma das principais estações de metrô de Munique se chama Marieplatz e em Viena a rua que me levava ao albergue da juventude em que me hospedei era a Mariehilferstrasse, ou rua Maria do Socorro, em tradução literal. Não conheço nenhuma rua com esse nome em Berlin, sequer estação de metrô. Mas temos a rua Karl Marx, uma estação de metrô e ainda uma alameda que leva o nome do filósofo. Temos a praça Rosa Luxemburgo e a Friedrich Engelsstrasse também. Entrei em mais de 7 igrejas em Viena, todas católicas e riquíssimas. Eu fazia assim: saia andando sem rumo, apreciando a arquitetura e sentindo o clima. Foi assim que entrei nas igrejas, sem um plano previamente traçado. E foi assim também que entrei em clube de rapel, palestra de literatura, ateliers de pintura e vernissagens. A grande surpresa pra mim foi a Biblioteca Nacional da Áustria (foto do seu interior abaixo). No café da ópera me dei ao luxo de comer um pedaço da famosa Sachertorte acompanhada de um café Mozart, que leva conhaque (foto). Fazia frio e o vento era forte. Então entrar nos lugares, abrir portas desconhecidas funcionava também como estratégia de fuga do clima rigoroso.
Em Munique vi rapazes indo pra balada com aquelas vestes típicas em que se vê apenas em tempos de oktober fest em Blumenau. Claro que não tão esteriotipados, mas vi uns com aquelas calças curtas feitas de um tecido que parece feltro, levando uma garrafa de cerveja. Outros portavam o chapéu típico da Baviera. No domingo teve jogo de futebol e alguns uniformizados entraram na estação aos berros, fazendo arruaça e cantando algo para irritar os policiais, pois ouvia a palavra politizei. Tanto em Munique como em Viena vi mulheres mais velhas portando lenços na cabeça e posso garantir que não eram muçulmanas e sim católicas mais antigas.  Fica na região de Munique, que é a capital do estado da Baviera, a cidade de Regensburg, alvo de um escândalo recente envolvendo o irmão do papa Bento XVI, Georg Ratzinger. Ali fica o coral mais antigo e famoso do mundo, os canarinhos da catedral de Regensburg, que segundo denúncias, muitos de seus membros infantis sofreram abusos. O assunto é pauta de discussão em todo país, um escândalo, enfim.
Em Viena fui "recepcionada" com uma passeata que, segundo os jornais do dia seguinte, reuniu mais de 10 mil estudantes (fotos). Tinha trio elétrico com música eletrônica, tinha grupo de percussão, alguns malucos divertidos vestidos de palhaço. Era uma manifestação estudantil contra o acordo de Bolonha, uma tentativa da União Européia de padronizar o ensino superior e que tem sido acusado de alinhar a educação ao mercado, ao sistema e tal. Recebi mini jornais, mas não pude entender o assunto à fundo. Desci a praça Europa, pela rua Maria do Socorro acompanhando a passeata, mas meus passos rápidos me levaram a disperssão. Não preciso dizer que a cidade estava repleta de policiais e até helicóptero sobrevoou a rua. Naquela noite ainda caminhei no bairro judeu com ruas estreitas e charmosas. Jantei num restaurante italiano, mas tomeu cerveja austríaca. Na caminhada do dia seguinte, notei e fotografei mais de uma vitrine com imagens de fetos em desenvolvimento e panfletos oferecendo ajuda à mulheres com gravidez indesejada. Panfletos em 3 línguas, como os da foto,  ficavam também penduados para o lado de fora da "loja". O aborto é legalizado na Áustria desde 1975 e certamente por ser um país bastante católico, há uma espécie de contra-ofensiva da Igreja na tentativa de impedir que as mulheres abortem. O que eu achei mais interessante foi isso aparecer em ruas comerciais, explicitamente, como uma loja ou coisa assim. Em uma das vitrines havia a imagem de uma santa. Acabei escrevendo mais sobre Viena. E meu tempo expirou por hoje.


terça-feira, 16 de março de 2010

O Congresso de Viena

Minha pesquisa é sobre o século XIX, mais especificamente a primeira metade. E nesse período, o Congresso de Viena foi um acontecimento político marcante. Com a queda de Napoleão Bonaparte, as potências européias, sob o comando do Império austríaco, se reuniram em Viena entre 1814 e 1815. A reunião é conhecida como um marco da restauração das monarquias, mas não quero falar em historiografia aqui. Quero escrever sobre Viena...
 Pois bem, a queda de Napoleão motivou o encontro em Viena. Então esse era o meu maior interesse quando estive na cidade. A capital da Áustria foi bastante polpada pelas guerras todas. Penso isso se a comparo com Berlin, onde os prédios com mais de 150 anos são bem raros. Então, cidades como Praga ou Viena se agigantam. O Congresso de Viena aconteceu no palácio Hofburg, cede da monarquia austríaca na época. Os Habsburgo governaram a Áustria por cerca de 600 anos, mas mantiveram ligações consaguineas com vários países e dinastias. Era a velha tática de casamentos arranjados. Foi assim que a mulher de "sangue azul", Leopoldina Habsburgo casou-se com o nosso futuro D. Pedro I, por procuração, em 1817. Eu passei pouco mais de 24 horas na cidade e bastava caminhar pela cidade velha, um museu a céu aberto. Porém a visita ao castelo onde ocorreu o Congresso estava mesmo nos meus planos. Na primeira parte do museu estão em exposição a prataria, adereços e porcelanas da corte e seus convidados. E está lá o rico acervo de talheres, pratos e baixelas produzidos exclusivamente para os nobres convidados de Metternich, nobre que presidiu a reunião iniciada em 1814. A riqueza e suntuosidade enche os olhos antes de revoltar. Na região da Boêmia, hoje parte da República Checa, eram produzidas as porcelanas. E que produção: rica em ornamentos em ouro e cores fortes. Os pratos mais elaborados levavam 5 anos para serem produzidos e segundo informações do museu, conservam até hoje os segredos na sua elaboração. As peças em ouro são um desbunde incrível.
Na segunda parte do museu, onde estão os aposentos, há uma exposição sobre a famosa imperatriz Sisi, imortalizada pelo cinema também por Romy Schneider, que fez seu papel nos anos 1950. Sisi era o apelido carinhoso de Elisabeth, duquesa da Baviera, que se casou com o rei austríaco Francisco José I. Impressionado com a beleza da prima, desposou-a em 1864, quando ela tinha 16 anos de idade. A exposição é rica e mostra bastante seu acervo pessoal. Até seu luxuoso figurino negro usado depois do suicídio de seu filho, em 1889. Mas também os acessórios de ginástica, que ela praticava diariamente. Tida como avessa ao protocolo exigido pela condição de imperatriz, gostava muito de viajar. E foi em uma dessas viagens que encontrou a morte. Na Itália, em 1898, um ativista anarquista cravou-lhe uma faca no peito. Certamente esse desfecho trágico tornou sua trajetória lendária.
Eu já fiz alguma referência a isso aqui no blog. E volto a afirmar: o excesso, a riqueza, a suntuosidade que as monarquias, por tradição, ostentavam como sendo naturais e por tão longo tempo, me parecem incabíveis no século XIX. E a reunião em Viena teve esse significado, como um arranjo entre as potências e as dinastias monárquicas. Apesar de Napoleão ter-se auto coroado imperador em 1800, ele não não tinha sangue azul e, de algum modo, disseminou os ideais de liberdade, igualdade e fraternidade pro resto do continente. Só um exemplo. Antes de Napoleão, em algumas regiões da Prússia, os camponeses não tinham liberdade sequer de se casarem com quem bem entendessem, quanto mais de se desligarem da terra. Ranços do feudalismo que só desapareceram porque seus governantes se viram obrigados a agirem assim, sob o perigo da dominação francesa.
Depois do congresso os movimentos de 1848 demarcaram ainda mais as posições. O Manifesto Comunista, as divergências entre Karl Marx e Bakunin são alguns exemplos de que o mundo não seria mais o mesmo. O descompasso foi violento e o jovem anarquista italiano, Luigi Lucheni, só pensava em uma coisa: ferir um integrante da realeza que representava retrocesso e desigualdade. Não importando qual. E Sisi estava no seu caminho, morrendo a mulher e nascendo o mito. A faca usada no seu assassinato está lá, em exposição, junto de uma das várias presilhas cravejadas de diamantes que ela usava em ocasiões especiais. 
Amo estudar o século XIX...!

segunda-feira, 15 de março de 2010

Central de caronas

A coisa funciona assim: a pessoa entra no site, preenche os campos desejados e o sistema localiza as pessoas que oferecem lugar no carro. Carona paga, digamos assim. Viajar de trem na Alemanha (e penso que pela Europa de modo geral) é caro. Existem promoções relâmpagos, mas isso depende de sorte ou coisa assim. Tem o ticket de final de semana que é bem barato, mas vale para 5 pessoas. Serve para estimular as famílias a viajarem nos trechos curtos. Foi no site do Mitfahrzentraler que eu e a Laurance encontramos o Xi Chang. Ele é chinês, estudante de engenharia ferroviária em Berlin e que tinha um ticket de final de semana para Munique, por 10 euros, valor que normalemente gira em torno de 110 euros. Consideramos um achado, apesar das 9 horas de viagem e das trocas de trem que fizemos. Mas tivemos alguns fatores negativos: tempestades de neve e acidentes fizeram nossa viagem durar 11 horas, entre atrasos, trechos percorridos com ônibus e caos. Eu fiz sanduíches, levei bombons e frutas. Considerando o exotismo que é viajar de trem pra mim, continuo achando que valeu a pena. Falamos da China, de religião sob o comunismo e desenvolvimento. Dividimos o alimento e dormimos. Sempre que tenho oportunidade de conversar com uma pessoa da China, falo com cautela, pois faço boicote aos produtos de lá e não posso falar assim abertamente com um chinês. A China pra mim é sinônimo de mistério. E a minha ânsia em saber, perguntar e questionar sobre o país, talvez coloque a pessoa tímida. Já tive uma situação assim na escola de línguas: assustei o cara que me cortou abruptamente. Penso que todo chinês que está fora da China, está, de alguma forma, envolvido com o sistema, bancado por ele ou algo parecido, dada à falta de liberdade. Há uns meses atrás encontraram chineses traficados para o norte do Brasil.  

Enfim, não é sobre a China que desejo escrever. É sobre o sistema de caronas que existe aqui. Lembro de uma tentativa de implantar o mesmo no Brasil, mas que não vingou. Conheço gente que viaja de Berlin pra Europa toda pelo Mitfahren. Tenho planos de visitar Dresden no próximo final de semana. Mas por enquanto tem um documento do word aberto em outra janela me esperando...

domingo, 14 de março de 2010

O castelo de Neuschwanstein

O castelo fica no estado da Baviera, no sul da Alemanha, próximo à fronteira com a Áustria. E é famoso por ter inspirado Walt Disney em Cinderela. O número de visitantes é imenso e notei que nas placas indicativas, ao lado do alemão, a informação é dada também em japonês. É notável mesmo a quantidade de turistas de olhos puxadinhos. Fiquei imaginando o "inferno" que é o lugar no verão, já que mesmo com neve o tumulto foi grande. Fui sozinha de trem de Munique até Füssen. Cerca de 2 horas apreciando paisagens frias, com montanhas e neve. Um ônibus leva os turistas à região dos castelos. Queria ter passeado por Füssen, uma cidadezinha super charmosa, mas não tive tempo. Do ônibus avistei muralhas antigas, que um dia protegeram a cidade, fundada durante o Império Romano. Na sua história recente, cediou um subcampo de concentração de Dachau.
A caminhada até o castelo foi intensa: montanha e frio. A riqueza do interior de Neuschwanstein é surpreendente. Ludwig II era o rei da Baviera quando assistiu a ópera de Richard Wagner, aliás, a quem nutriu especial admiração. Há uma sala do castelo com motivos inspirados em Tristão e Isolda. A proposta inicial era uma construção inspirada na Idade Média, revigorada pelo romantismo alemão do século XIX. A construção foi iniciada em fins dos anos 1860 e o rei pra lá mudou-se em 1884. Era um rei recluso e que sofreu por não encontrar equilíbrio em tempos de tantas guerras. Tinha problemas mentais e expressou toda a sua fantasia na construção desse castelo. Morreu em circunstâncias misteriosas em 1886. Meu sentimento é sempre de admiração quando visito esses lugares, a personificação do glamour do Antigo Regime. Foi assim em Versalhes e em Viena. Depois, pelo excesso, vem o terror. Fica mais fácil entender a Revolução Francesa, por exemplo.


quinta-feira, 4 de março de 2010

Underground é pouco pra Tacheles

Marquei de ver uma amiga, a Cristina, romena que morou no Brasil. Ela escolheu o Studio 54, na Orienerburstr. por ser perto do novo trabalho dela. Nos encontramos na frente pro chá das 5. Tomei uma cerveja que veio em forma de chopp. E ela um chá de limão quente. Hoje de tarde nevou. Depois subimos as escadas da Tacheles (ou será que descemos?) O trabalho de colagem desse cara provocou em mim sentimentos de inveja e saudade, já que não pico papel há tanto tempo. Josefine Backer vive. Zapatismo em Berlin. Descobri o maravilhoso Alex Rodin, que volta em 2 semanas pra Berlin. Quero muito conhecê-lo. As imagens de lá mobilizam meus dedos. Ficam elas...