domingo, 5 de dezembro de 2010

Migrando

Não sei qual a forma de entrada das pessoas aqui, mas percebo alguma frequência. Como o Berlin direction está totalmente desativado e eu iniciei um outro blog, escrevo esse último e derradeiro post para convidar a quem quer que apareça aqui a visitar o Habana Direction, blog resultado de minha passagem pela Ilha de Cuba.
Muito agradecida.

sábado, 14 de agosto de 2010

Só depois da Copa do Mundo

Tem sido tarefa fácil me aborrecer: tpm. Mas cheguei na minha terra natal e me senti uma estranha no ninho. Como historiadora e maringaense, ver pela tv as máquinas da prefeitura destruindo um prédio histórico, doeu. Nem tive coragem de ver ao vivo. Por onde anda a noção de patrimônio histórico do poder público? A sociedade se organizou, mas não foi ouvida. Sinto muito, sinto tanto. Sinto vergonha. Me sinto fora, out... uma coisa tão óbvia! A UEM já tem um curso de arquitetura, poderia abrir um concurso, como aconteceu com o Circo Voador no Rio, quando o projeto de um grupo de estudantes ganhou e foi executado com investimentos da prefeitura. O museu d´Orsay em Paris foi uma estação ferroviária, assim como o museu de arte contemporânea de Berlin. Uma vez li uma entrevista do Roberto Mangabeira Unger e ele dizia que o Brasil era o país do mundo mais parecido com os EUA. E um exemplo dado era essa prática de destruir o velho e levantar arranha-céus. Tenho que concordar com o professor de Harward. Isso pra mim é negativo, mas certamente para muitos maringaenses pode ser um elogio. Pobre de nós, civilizados (?)... Mas isso incentivou o ressurgimento do Chave de lá: um suspiro!? Talvez resistência e criação de formas de sobrevivência em meio ao descaso, à ignorância e à força do dinheiro e da especulação imobiliária. A vida segue em exclusão. Como Marina W, queria ser um urso, imbernar numa caverna profunda e sair só depois da Copa do mundo...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

A palavra de Jesus Cristo a minha porta

Há alguns dias atrás dois jovens senhores, engravatados, tocaram minha campainha sorridentes. Eram religiosos testemunhas de Jeová que queriam pregar a palavra. Ocupada, escrevendo, disse que não entendia nem falava muito bem a língua alemã, mas que era cristã e agradecia a visita. Perguntaram de onde eu era, deixaram um panfleto da igreja e foram embora. Eis que hoje, mais de 15 dias depois, missionários da mesma igreja tocam a minha campainha e se apresentam em bom português, dizendo que sabiam que aqui morava uma brasileira. O interessante é que eles subiram direto, sequer interfonaram. Eu estava à vontade em casa, trabalhando no computador, e não me senti disposta a convidá-los a entrar, coisa que meu pai fazia sempre. Coincidentemente, hoje faz 3 meses que meu pai morreu e me dei conta disso na conversa, ao falar da crença dele, também protestante, e de um tio que é testemunha de Jeová, e que me mandou um e-mail muito bonito depois do desencarne do meu velho. Eu não gosto de religião. Acho que tosa muito as pessoas. Mas meu cristianismo é inevitável. Entro sempre em igrejas com muito respeito, ajoelho e rezo. Aliás, gosto muito de entrar em igrejas. Sempre que uma "atravessa" meu caminho, se tenho tempo, entro. Nunca tomei hóstia por não ter acabado o curso preparatório. Tive formação espiritualista e acredito em muita coisa do kardecismo. Assim como as meditações do Brhama Kumaris me fizeram um bem danado certa época no Rio de Janeiro. Os testemunhas de Jeová foram perseguidos pelo nazismo. A doutrina não aceita transfusão de sangue e isso é coisa que não entendo. Meu pai recebeu sangue antes de morrer e eu não seria capaz de impedir, por uma crença religiosa, de tentar salvá-lo. Aqui na Alemanha, as pessoas pagam um imposto especial para a Igreja que fazem parte. O cidadão precisa se desligar oficialmente da religião para não pagar mais impostos. No Brasil a coisa é bem diferente, já que o governo dá incentivo fiscal e é bem fácil abrir um templo religioso. Certa vez li uma lista absurda de igrejas brasileiras. Seus representantes reacionários (quase sempre) estão na TV e tem uma bancada política admirável. Tenho nojo dessa mistura: política com religião.

Mas voltando pra visita a minha porta, a moça de Maceió quis encontrar uma via de acesso na conversa e me perguntou se eu já havia sofrido algum tipo de preconceito, ao mesmo tempo que me ofereceu uma revista da sua igreja (foto). Eu fiz cara de quem estava pensando, mas já negativamente, quando ela disse: "Você tem mesmo cara de alemã...!" Então imaginei que esse talvez fosse o ponto de acesso que eles tenham encontrado para abordar os brasileiros em Berlin. Certamente é muito mais fácil converter alguém que sofre preconceito fora de seu país ou passa por uma depressão. Não importa, eles faziam o trabalho deles e eu os tratei com respeito e simpatia. E lembrei das visitas que os testemunhas faziam ao meu pai: eram tão boas, eles conversavam horas a fio. E meu pai era um filósofo de rua, dizia coisas bem profundas às vezes. Contrariando as crenças do casal a minha porta, já que os testemunhas de Jeová não acreditam na vida após à morte, mando essa energia terrena boa da visita deles pro meu pai, onde quer que ele esteja agora... e que assim seja! Amém...  

domingo, 18 de abril de 2010

Eficiência do tempo

Desde que cheguei na Alemanha admirei a eficiência dos meios de transporte. Em cada ponto de ônibus, por exemplo, o passageiro tem os horários exatos de cada ônibus que pára ali, inclusive aos sábados, domingos e feriados. Já notei um motorista fazendo hora no ponto, talvez por estar adiantado. Todo o sistema de transporte é interligado e administrado pela BVG. E uma estratégia que me ensinaram e que me deixou admirada, foi o serviço oferecido no site. O usuário indica os endereços (de onde se está e para onde se quer ir), os horários que se quer sair ou que se quer chegar ao destino, e o sistema oferece as opções de transporte e os minutos exatos da demora. Achei isso incrível, ainda mais depois de experimentar e ver que realmente funciona. Até por isso, me lembrei de quando morava em Niterói e tinha que estar na Urca ás 9:30 da manhã para apresentar comunicação num congresso que acontecia no Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ. O receio de não chegar em tempo me fez sair de casa bem mais cedo: era arriscado demais e o compromisso importante. Certamente é muito melhor morar numa metrópole que oferece um sistema de transporte digno e com uma eficiência de tempo que beira o absurdo. Aqui, a ausência de um carro é imperceptível. Carro é luxo puro pros habitantes de Berlin...!

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Os vizinhos movie makers e seu Time´s up

Berlin cedia um festival de cinema e o casal do apartamento debaixo me convidou para ver o filme deles. Um curta-metragem de 15 minutos. Eu já disse aqui no blog que Berlin é super cinema e que é coisa comum ver produções acontecendo  no meu cotidiano. Aliás, há uns 2 meses fui numa vernissage onde também faziam uma produção e acabei, sem querer, fazendo figuração. O prédio onde eu moro é cheio de artistas jovens e idealizadores. Nossa relação é estreita, mas não tão intima como seria possível numa vizinhança no Brasil. Lembro da Madalena em Maringá e da comunidade paranaense em São Paulo: nada se compara à cumplicidade do brasileiro. Mas enfim, fui ver o filme e foi o primeiro que assisti do casal Marie Catherine Theler e Jan Peters. Feito em super-8, Time´s up é uma autobiografia do casal, com comentários irônicos, cortes rápidos e imagens coloridas, que conta a história do recebimento da notícia da gravidez dela. É um filme sobre o tempo e o quanto ele é relativo. Hoje Tilda tem cerca de um ano e meio e no final eu disse pra eles que esse era o documento mais bonito e sincero que eles poderiam deixar pra garotinha. Imaginei ela vendo o filme aos 10 anos de idade. Muito legal mesmo. E as cenas mais interessantes foram feitas com uma fita métrica, a torre de TV de Berlin ao fundo e a barriga de Marie (como na foto de divulgação aqui ao lado). Durante toda a gravidez eles foram no mesmo lugar e mais ou menos na mesma hora do dia, coletar imagens, que depois foram coladas em ritmo acelereado e ficou genial, porque no fundo, aparecia também o prédio do governo da falecida República Democrática Alemã, que estava sendo demolido. Enquanto a barriga crescia, o prédio desaparecia...
Depois veio o documentário Lychener 64, que é um endereço em Prenzlauer Berg, região oriental da cidade que depois da queda do muro sofreu uma transformação absurda pela especulação imobiliária. O filme de Jacob Rühle, um jovem de 34 anos, é um esmero. Foram mais de 4 anos coletando depoimentos dos moradores desse endereço e das autoridades responsáveis pela "expulsão" dos moradores. A sala do Babylon estava lotada (era a primiere desse filme). Ele intercalou as imagens atuais, de 2005 a 2009, com as de programa de telivisão da DDR exaltando a reconstrução e reformas dos seus prédios, com o discurso comunista. Os moradores resistiram, uns mais outros menos. Alguns ficaram no prédio até o último momento, quando as paredes dos vizinhos já eram postas abaixo. Traços das vidas de cada um foram desenhados. A perda do sentido de comunidade desabou com as paredes do prédio. Investidores de Hamburgo e Leipizg interferiram na vida de uma coletividade cada vez mais rara no sistema capitalista. Um relato da História de Berlin, bem contada, com toques de ironia e sátira. E no final, mesclando imagens do resultado kitch-chic do prédio novo lançado em setembro de 2009 com o áudio do programa de TV da DDR, vê-se que o discurso de exaltação do novo, do moderno e eficiente, é comum aos dois sistemas. Aí lembrei de um comentário do Marshall Berman em seu livro "Tudo que é sólido desmancha no ar", título que é a apropriação de uma frase de Marx, relembrando a construção de residências destinadas à classe operária em meados do século XIX na Inglaterra. A dupla do Manifesto Comunista indignava-se com a fragilidade dessas construções, que não durariam 40 anos, segundo eles. Os moradores da Lychener 64 não se importavam de ter que sustentar os fornos à carvão no inverno. Nem de terem uma cozinha sem porta ou um banheiro coletivo. Tudo funcionava em comunhão. O novo, novíssimo é capaz de destruir a velha comunhão entre os seres humanos. E foi o que aconteceu em Prenzlauer Berg.   

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Madame Anneke, soldada e sufragista

Essa caricatura foi publicada em um jornal reacionário na época da Revolução de 1848 na Alemanha. Mathilde Anneke era uma mulher alta, grande e acompanhou o segundo marido, que tinha sido do exército prussiano, nos campos de batalha. Mas antes disso, aos 20 anos, ficou famosa por defender-se pelo jornal de Colônia, conquistando o divórcio e a guarda da filha que teve com um nobre. Ela desistiu do casamento e seus argumentos na imprensa lhe deram fama. E claro, uma mulher agir assim em pleno ano de 1837 era coisa inconcebível. Dái o sarro da caricatura, onde ela senta no cavalo como os homens faziam. O enlace com Frtiz foi também ideológico. A patota em Colônia incluia Karl Marx e Engels, que mantinham um jornal opositor. Tanto que eles foram presos junto com o eleito de Mathilde. Sufocada as tentativas revolucionárias que incluiam a unificação da Alemanha (que só ocorreu em 1871), os autores do Manifesto Comunista seguiram exilados para a França e depois pra Inglaterra. O casal Anneke seguiu para a Suiça e depois para os EUA. E foi lá que essa mulher tornou-se uma das líderes da luta pelos direitos das mulheres.
Estudar as mulheres do passado, me traz um peso enorme nas costas. Sinto que fica, a cada dia, mais difícil ser mulher: não deveria ser o contrário??

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Diálogo preocupante

Desde que comecei a frequentar as piscinas públicas em Berlin, encanei com a falta de exame médico. Eu nadei em muitos lugares no Brasil. Em Maringá na minha terra natal, todo ano era obrigatório atualizar a dispensa médica. É certo que o exame coletivo era sempre motivo de piada, pois daquele jeito não era possível detectar nenhum problema de pele. Depois no Caio Martins em Niterói e na ACM do centro do Rio, a mesma coisa: exame médico pra nadar. Aqui, qualquer pessoa entra nos banhos públicos sem precisar de exame, simples assim. Já nadei em várias piscinas e nunca houve empecilho.
Eis que ontem, depois da natação de noite na Stadtbad Neukölln,(quando a entrada é mais barata: 2 euros depois das 20hrs), estava no vestiário começando a me trocar na cabine individual, quando ouvi o diálogo em inglês. Uma das mulheres disse estupefada: "Nossa, o que é isso? Está muito sério, você deveria procurar um médico imediatamente!" A outra tentou amenizar, disse que logo ia passar. Mas a sua interlocutora não se deu por satisfeita e voltou a dizer que estava muito feio, e que um médico naquele caso era imprescindível. Eu ouvi atônita e curiosa. E relembrei da garota na mesma piscina que eu, minutos antes. Elas não eram alemãs e tinham um sotaque norte americano. Lembrei do filme do Michel Moore, Scico (?) sobre o sistema de saúde nos EUA. Ou os alemães confiam muito na saúde de seus cidadãos, ou é mesmo descaso. Enfim, fiquei cabreira e curiosa. Mas não vou deixar de nadar por isso.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Quando Beethoven renasceu no Chile

No ano passado participei do congresso promovido pela Universidade Livre de Berlin e pela Alexander von Humboldt University, dos EUA, intitulado: "Travels Between Europe and the Americas." Mas não quero falar aqui da minha apresentação e sim, da escritora chilena Isabel Lipthay, que atualmente mora em Münster. O título do trabalho dela me instigou: “De cómo Beethoven escapó de las bombas lacrimógenas en Chile.” E na verdade, a fala dela ultrapassou a mera a apresentação oral. Ela tinha um vestido colorido, típico da América Latina e também um sorriso sincero e lúdico. Através de um telão, ela mostrou trechos de um documentário em processo de finalização, do diretor norte-americano Kerry Candaele. Eles voltaram ao Chile em 2007 com o intuito de levantar depoimentos sobre a "Ode à Alegria", poema de Schiller, escrito em 1785, que inspirou Beethoven em sua nona sinfonia. A música de Beethoven recebeu uma letra especial, que naquele contexto, signficava liberdade. O músico alemão lançou-a em 1824, em Viena. De lá pra cá, a canção rodou o mundo, foi traduzida em diversas línguas e adquiriu inúmeros significados. Um trailler do filme pode ser visto aqui. Aliás, no início, Isabel historicizou o uso dessa música na Alemanha, inclusive pelo nazismo. No Brasil ela resurge no Natal, já que sua tradução para o português, fala de paz e irmandade entre os homens.
Mas o interesse de Isabel Lipthay era falar da canção de Beethoven durante o movimento de resistência no contexto da queda de Salvador Alende, em 11 de setembro de 1973 e também durante a ditadura de Pinochet. A canção significava oposição no Chile e também foi cantada por ela. Vítima da ditadura, exilada política, hoje ela considera Münster sua terra. Conforme ela mesma frisou, é lá onde ela plantou uma maciera no quintal e também amigos. A performance dela provocou emoção, quando em frações de segundo, se sente os pelos dos braços se levantarem, arrepiados. Foi um depoimento, enfim. E no final ela cantou, lindamente, foi aplaudida e assediada pelo público. Eu tive vontade de abordá-la, dizer algo e lhe dar um abraço, mas preferi me calar e segui pra outra sessão. No último dia do congresso foi oferecida uma viagem à Weimar e nos encontramos no trem. Então pude dizer e me solidarizar. A ditadura militar no Chile foi certamente a mais violenta da América Latina. Foi tardia, se compararmos com a brasileira. Muitos dos nossos intelectuais de esquerda, como Darcy Ribeiro e Miguel Arrais, foram exilados no Chile e até participaram do governo Allende. E no 11 de setembro latino americano, o palácio do governo foi bombardeado com o ostensivo apoio dos EUA. Morria o presidente socialista eleito democraticamente pelo povo chileno, Beethoven era ressuscitado e Isabel fora obrigada a deixar sua pátria rumo a Alemanha.   

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Produto do mundo

Observei numa peça de roupa comprada na loja de departamento H&M em Berlin, a quantidade de informações contidas nas etiquetas. Prova concreta do processo de globalização e da circulação das mercadorias ao redor do mundo, afinal são 22 línguas informando que o produto tem 95% de algodão e 5% de elastano e ainda como ele deve ser lavado. Foi produzido no Siri Lanka e tive o maior cuidado na hora de passar a tesoura pra retirar as tais etiquetas da peça. Além das líguas da União Européia, aparecem as informações em japonês, finlandês, slovaco, coreano, russo e árabe, além das ciglas UH (húngaro?), PL (polonês?), SE e SI (sírio?).
Eita mundão de meu Deus!!

domingo, 11 de abril de 2010

Batucada contra energia nuclear

Não foi a primeira vez que a Baixada Berlinense particpou do protesto. Convidado para animar a passeata em Mitte, região central de Berlin, o grupo foi munido de tambores e alegria. Eu fui apenas em um ensaio e meu endereço de e-mail já caiu na graça do grupo: fui convocada pro protesto de sábado, 10 de abril. O mesmo aconteceu em cerca de 50 cidades ao redor do país e contou com ativistas da ecologia, mas também de partidos como Die Linke, SPD e o Grüne, ou seja, a esquerda, o partido social democrata a os verdes. A gente se reuniu às 10:30 na frente da Vattenfall, que é a empresa de energia que atua em todo norte da Europa e se vale da energia nuclear. Uma demonstração oficial e pacífica, por isso, com o concentimento e a proteção da polícia alemã, que esteve em todo o trajeto. Os organizadores distribuiam, em troca de qualquer moeda, fitas amarelas (última foto) com imagens da corrente de gente e a frase: "Desliguem a energia atômica", em preto. Tinha velhos e jovens, famílias inteiras acompanhando o protesto, também cadeirantes e bebês de colo. Um carro de som já havia trazido os tambores e foi preciso esquentar com o som, pois fazia frio: um pé de vento gelado e no último minuto da passeata, logo depois da fala dos organizadores, choveu. Entre insegurança e concentração, meu olhar esteve sempre na mestre, Débora Saraiva, que me ajudava a tocar certinho (ou melhor, a fazer o barulho corretamente..hehe). Foi tudo muito legal: as pessoas dançavam, aplaudiam e tiraram muitas, muitas fotos da passeata. Tinha até cachorro com cartaz no pescoço.
Uma das imagens que mais estampavam os cartazes era essa: "Força atômica? Não, obrigada." E mesmo com o envolvimento partidário, eram poucas as bandeiras dos partidos políticos envolvidos. Os participantes fizeram uma longa fila em marcha, de mãos dadas e unidos também com a fita amarela e preta, enquanto passávamos batendo tambor e alegrando o povo. É o que eles chamam de corrente de gente. Os jornais hoje falam em 1.200 participantes. Tinha outro grupo de jovens percurssionistas que ficou mais pro final da caminhada. Um rapaz de bicicleta e auto-falante dava o ritmo da marcha, que teve mais ou menos um quilômetro e meio de percurso. O auge foi quando passamos por baixo da ponte da Friedrichstrasse, uma estrutura de ferro antiga que deu uma acústica arrepiante. Paramos lá embaixo, porque a mestre nem é boba nem nada, e fizemos um groove que arrancou sorrisos do grupo. Os turistas dançaram e fizeram muitas fotos, assim como os próprios participantes e a imprensa. E foto foi o que não fizemos. Então fico imaginando por onde estão as imagens da Baixada Berlinense mundo afora...

sábado, 10 de abril de 2010

Reciclagem consciente

A grande maioria das garrafas descartáveis (tipo pet) na Alemanha, são recicláveis. Até aí tudo bem, mas o que me chamou mesmo a atenção foi a forma como a coisa funciona. Quando as pessoas compram refrigerantes, sucos ou mesmo água no supermercado, elas consomem também o compartimento de plástico que é super poluente. Entretando, os supermercados de médio ou grande porte, são equipados com máquinas que recebem esse material das mãos do próprio consumidor. Funciona assim: as garrafas que são admitidas no sistema possuem no rótulo a frase "Pfand zurück" , algo como depósito retornável, ou simplesmente têm o símbolo estampado.
 Então, os consumidores se dirigem até a tal máquina e vejo quase sempre fila de pessoas com sacolas de garrafas vazias. De uma em uma, a garrafa é colocada num buraco e lá dentro, o sistema identifica através de uma espécie de scanner, que tipo de garrafa é, aceitando ou eliminando, já que não são todas que fazem parte dessa parceria. Notei que as garrafas de água mineral importadas da Turquia por exemplo, não são aceitas. Num visor ao lado, é mostrado o valor a ser creditado ao consumidor.Uma garrafa grande de suco, por exemplo, dá um bonus de 25 centavos. Já as pequenas de coca-cola, 15 centavos. Pois bem, quando todas as garrafas foram colocadas e identificadas pela máquina, o consumidor aperta um botão verde e em alguns segundos um ticket, desses de supermercado, sai da máquina com o valor total que poderá ser usado para as suas compras no mesmo supermercado. No caixa, a funcionária diminui a quantia que consta no ticket, do valor da compra final. Simples assim. E cidadão. Isso é tão corriqueiro e comum, que é programa de família, já que observei certa vez, uma garotinha na fila da máquina, afoita em querer ajudar a mãe nessa tarefa. Já vi também velhos moribundos com sacolas cheias de garrafas.
Daí quando penso numa estatística divulgada com orgulho no Brasil, de que somos o campeão em reciclagem de latas de alumínio, me entristeço. Isso reflete um problema social sério, já que muitas pessoas vivem dessa atividade ou tem nela como um complemento da renda. Uma empresa carioca, na Glória, no ano passado, pagava 10 centavos pelo quilo de alumínio: valor vergonhoso, devo admitir.  Lata de alumínio é coisa rara na Alemanha. As garrafas de cerveja têm em média 500 mls e passam pelo mesmo sistema da máquina, mas também há lojas que vendem bebidas que aceitam as garrafas vazias como pagamento. A mais comum vale 14 centavos de euro. Já vi pessoas andando nas estações de metrô, com maletas de rodinhas recolhendo garrafas, provavelmente para complementar a renda também. E como em Berlin é comum e cool sair pra balada portanto uma garrafa de cerveja na mão ou caminhar pelas ruas bebendo no bico, é bem fácil encontrar nos cantos e nas latas de lixo, garrafas vazias que valem dinheiro.
Certamente esse bonus estimula as pessoas a guardarem as garrafas e levarem pra máquina. É justo, consciente e cidadão. Então me lembro de quantas vezes torrei o saco de amigos e familiares que sequer separavam o lixo orgânico do inorgânico no Brasil. Aqui, se os moradores do apartamento não o fazem, estão sujeitos à multa. Quando se mexe no bolso, para benefício ou malefício do cidadão, a coisa parece funcionar.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

"April, April, macht was er will..."

A expressão serve pra explicar as condições climáticas do mês de abril na Alemanha. "Abril, abril, faz o que ele quer", afinal, céu azul com sol ou chuva com céu nublado convivem harmoniosamente esses dias. Calor e frio, e a gente fica com vontade de tomar um sorvete sentado na grama do parque ou talvez um capuccino no aconchego de uma cafeteria.

Da minha janela percebo as mudanças. E tem outra aqui, mas no computador, no windows, que me espera.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

O Brasil na TV alemã

Eu estava lendo na sala quando fui chamada aos berros para ver a notícia da TV. Jornal das 19 horas, em canal público. Vi imagens terríveis de morro desabando, ruas que pareciam o mar e uma multidão de microfones ao redor do presidente Lula que deu uma explicação. Segundo a tradução da notícia, o presidente brasileiro pediu para o povo rezar. Entrevistaram um jovem senhor que (por acaso?) vestia uma camiseta de time de futebol com a marca Siemens estampada grande na frente, e ao lado, o símbolo da Adidas. Pelas corres, imaginei que fosse um botafoguense. Pensei no poder da edição e das imagens quando vi outra notícia sobre o desastre na China, onde uma mina de carvão desabou: a coisa foi noticiada uma semana depois e editada cautelosamente. Mas voltando à notícia sobre o Brasil,  na tradução da sua fala, o cara com a camisa de time de futebol, questionava a falta de infra-estrutura de uma cidade que cediará a Copa do Mundo de futebol em 4 anos. Somada às Olimpíadas, haja força pra suportar o peso nos ombros que esses dois eventos trarão pro país. Um país que o mundo quer ver acontecer...

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Imagem de mulher

Encontro pela casa um livro. Reparo na imagem da capa do livro de Amin Maalouf. É sobre a guerra com os árabes: entre a cruz e a espada, a mulher de tranças loiras foi cristianizada; montada no cavalo, não de ladinho como se esperava das ladies de outrora. Os germânicos tinham as pernas arqueadas por montarem desde a infância. Eram os bárbaros que tinham arona de cebola e alho, como se ensina pelos livros didáticos.

Que imagens se fazem das mulheres no mundo? Quais fizeram? E quando uma mulher ama outra mulher? Debate na blogosfera e a Lola percebendo os insultos à Morango. O mundo virtual apavora e me satisfaz.
O olhar do casal relativisa tudo. Casal é quem casa?
Casal de pai e filha? A história da infância é recente, assim como a da adolescência. O cristianismo trouxe  culpa e tratou de atrocidade o que era o desejo do corpo. Vejo nos olhares do casal com armadura, montado à cavalo, o amor romântico.

terça-feira, 6 de abril de 2010

Sobre coisas úteis, mas supérfluas

Desde a primeira vez em que estive num supermercado de Berlin, notei a existência de produtos supérfluos. A quantidade de parafernalha de cozinha, por exemplo, beira o absurdo pra mim, que gosto de improviso e sou um tanto minimalista. Talvez esses utensílios sejam úteis no dia-a-dia, principalmente para quem passa muito tempo na cozinha, o que não é meu caso. Mas por outro lado, é preciso incentivar o consumo, e essa é a alma do capitalismo, não é mesmo? O uso específico de algumas coisas me faz rir. Vou exemplificar. Existe um produto feito única e exclusivamente para fazer um furo na casca do ovo, antes de ser levado na água para ser cozido. É de plástico, redondinho e com um movimento a pessoa faz o furo. O mesmo resultado pode ser alcançado com uma faca afiada. Aliás, nunca vi ninguém no Brasil furar a casca antes de cozinhar o ovo. E por falar em ovo, existe também uma máquina elétrica para cozinhar ovos, com a qual a pessoa pode escolher a consistência deles: moles ou duros. Num lugar em que é costume comer ovos no café da manhã, até que isso não é ruim, mas vejo como tralha, já que com uma caneca e água no fogão se chega no mesmo resultado. Outro exemplo é uma tampinha de plástico do tamanho da lata padrão de sardinha. Pra não dizer que é inútil, prefiro usar o conteúdo todo da lata ou talvez embrulhá-la num papel laminado. Posso estar sendo radical, mas pra quem vive sem forno e panela de pressão há mais de 4 anos, a vida vai ficando simples. Tem um amassador de batatas que é um trambolho e só serve pra isso. Mas tem a máquina de ferver água que agiliza bem quando se tem pressa.  Eu tirei uma foto bem sem vergonha do que pra mim foi o campeão de utilidade supérflua: um guardador de banana! Em várias cores e por apenas 1 euro e 99. Tudo bem que é fácil amassar uma banana quando transportada, mas existem tantas outras formas mais criativas para se proteger uma banana dentro da bolsa...!
 Esse é um produto que eu não queria ter em casa nem de graça...:)
  

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Um Hitler ajoelhado

Estava muito frio. Neve e vento. Então eu e Laurence entramos na Haus der Kunst, um museu no centro de Munique, também pra usar o toilete e fazer uma ligação. Infelizmente não tínhamos tempo de visitar o acervo. Mas no caminho para o banheiro, percebi imagens afixadas no imenso corredor e uma em especial me chamou a atenção: Adolf Hitler ajoelhado e rezando, compadecido e com um olhar arrependido que incomoda. E incomodar parece ser a principal proposta do artista e também curador italiano Maurizio Cattelan. Entre suas obras, estão uma escultura de um papa atingido por um meteorito e crianças enforcadas numa árvore. Então tirei uma foto da foto que vi e posto aqui.

domingo, 4 de abril de 2010

Onda Bio-vegana

Existe um selo estampado nos produtos levando a marca Bio. De batatas ao leite, tudo que leva o selo é mais caro nos supermercados. Por exemplo: uma caixa de leite normal, custa em média 48 centavos de euro. O que leva o selo Bio, custa 98 centavos. É que as vacas que produzem o leite bio, não são confinadas e comem ração livre de agrotóxicos. A cenoura, a salcinha, os ovos, o milho, o iogurte, a carne, enfim, os produtos bio são especiais. E tem mesmo uma onda na Alemanha de incentivo à comercialização desses produtos. Esses dias fui comprar cenouras e o pacote de um quilo, bio, era apenas 30 centavos mais cara. Por isso optei por elas. Já o leite, não me importo e compro sempre o mais barato. O gosto dos ovos bios, é diferente dos "normais". Usando esse adjetivo para os ovos, normais, penso na inversão de valores nessa troca mercadológica: o natural deveria ser mais barato. Mas aí tem o quesito durabilidade e tal. Os produtos com agrotóxicos resistem mais, isso é fato.
Então percebo cada dia que passa mais pessoas conhecidas que se dizem veganas: os vegetarianos radicais, já que não se alimentam de nada que tenha origem animal, como mel, leite, ovos e naturalmente carne. Receitas são comercializadas em revistas especializadas. A moda do "slow food" também têm adeptos em expansão. Um movimento contrário ao fast food, ou seja, a cozinha como um espaço de convivência e certa integração social, em que as pessoas curtem o prazer do ato de cozinhar, sem pressa ou pressão. E numa cidade como Berlin em que se vê manifesto por todos os cantos, essa área não poderia ficar de fora. Essa imagem da vaca na foto, estava posicionada dentro do vidro, no canto, onde fica o mapa da cidade, na estação de metrô aqui perto de casa. Fiquei imaginando as mil artimanhas da pessoa responsável por isso, já que o vidro estava intacto e tal. Talvez tenha sido o próprio funcionário do sistema de transporte o responsável pela fixação da caricatura. Enfim, especulações à parte, deixo o manifesto da vaca misteriosa, que diz, no inglês universal: "Foda-se: coma a si mesmo!"

sábado, 3 de abril de 2010

A Pop arte não polpa nada nem ninguém

A figura mais emblemática da Pop arte certamente foi Andy Warhol. Sua produção não polpou nada e nem ninguém: de Marilyn Monroe à Mao Tse-tung, da rainha da Inglaterra ao rei do futebol, de Jesus Cristo ao fetiche do sapato de salto alto feminino ou às latas russas de sopa. O Museu Brandhorst em Munique foi construído especialmente para abrigar a coleção particular do mecenas alemão Udo Brandhorst, e muitas obras de Warhol estão em seu acervo. Através de um concurso arquitetônico, foi escolhido o projeto. Gostei muito dessa inversão das coisas. Um prédio foi pensado de acordo com o acervo que o abrigaria. E isso, no resultado final, faz toda a diferença. A sala gigante do último andar com as obras do pintor norte americano Cy Twombly é o exemplo maior desse movimento: fica difícil imaginar as obras em outro lugar ou em outra posição que lhe é tão própria. O valor de um euro de entrada é simbólico mesmo. Ver uma escultura de Ron Mueck, que eu só conhecia pelos livros, foi emocionante (foto). Como é real e perfeito os corpos humanos, uma mulher parida com o bebê e o cordão umbilical ainda ligando os dois seres. Sigmar Polke em sua ilustração da liberdade, igualdade e fraternidade incomoda e satisfaz (foto). E os símbolos do comunismo não ficaram de fora do olhar de Warhol: sem eles, penso que sua obra seria incompleta.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

A esquerda radical

São várias as organizações. De linha sindical às organizações de bairro. Jorge é filho de portugueses e se estabeleceu na França. Conheci a figura em Paris há dois anos, quando nos deu a chave do conjugado onde mora o amigo itlaiano, tradutor da United Nations que estava fora por uns dias. Os comunistas existem mesmo: tenho muitas provas. O Jorge  veio passar um tempo em Berlin com a esposa, Nadia e a filha de 6 anos: uma fofa. Lembro que foi na casa dele que bebi o famoso absinto pela primeira e única vez. O papo rolou noite à dentro no bairro onde tem travestis nas esquinas. Isso em Paris. Ele me contou causos sobre o presidente Charles de Gaule que a história pouco enfrenta. Como uma emboscada planejada por ele em 1961 quando mais de 300 pessoas morreram e foram lançadas no Sena na calada da noite. Ditaduras se instalando mundo a fora e a esquerda francesa não iria se calar em plena Guerra Fria. Pagaram um preço alto por isso. Aí ele me disse que tinha conhecido uma galeria aqui em Neukölln que leva o nome de uma comunista alemã que morou no Brasil. Ele não lembrava o nome e eu logo sugeri: Olga Benário Prestes? Sim, a própria. Ele me disse que há 2 semanas atrás um grupo da esquerda organizou um protesto silencioso no bairro. Disse que o evento foi criado em represália aos neo nazistas de Berlin, mais especificamente do sul de Neukölln, que em determinadas madrugadas fazem arruaça, jogam tinta e quebram janelas dos apartamentos das minorias. Adolescentes, enfim. Confesso que essa informação foi uma grande surpresa pra mim. No evento que ele participou, os manifestantes se encontram num bar que é o nicho da resistência e aí seguem pelas ruas, numa passeata silenciosa, param em frente aos prédios e realizam discursos e debates. Foi assim que ele conheceu a galeria Olga Benário. E eu fiz o resumo triste da trajetória dessa mulher. Jorge é mesmo uma figura. Há 15 anos foi  ao México participar de uma marcha do moviemento zapatista e conheceu o famoso comandante Marcos em Chiapas. Contou suas aventuras nas montanhas frias mexicanas à procura de pouso e alimento. Me "apresentou" o enigmático escritor B. Traven, de provável origem alemã que se estabeleceu em terras mexicanas. O jantar de domingo foi bastante acolhedor e intenso. A ponto de Annete, a filhinha de 6 anos adormecer no sofá e dormir profundamente. Eles voltaram pra casa à pé, no meio da madrugada com a menina nos braços.
Deixo aqui no blog imagem de um cartaz anarquista afixado numa parede no centro de Viena. Traduzindo do meu jeito: "Agora mesmo! Viver com sabotagem. Grupos anarquista e autonomo de Viena"